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NOTÍCIAS - Dinheiro

Segunda-feira, 26/10/2020 12:33
Por Vânia Valfogo

A dupla que aproxima a favela da bolsa

Canal de amigos Murilo e Vinicius fala de finanças pessoais para baixa renda, com a linguagem do povo da 'quebrada'



“Por mais que eu nasci na favela meu futuro é ser milionário.” É com esse sugestivo trecho da música dos rappers Orochi e Maquiny que começam os vídeos do canal Favelado Investidor, comandado por Murilo Duarte, de 24 anos, e Vinicius Silva, de 23. A música toca só por 13 segundos, para não infringir a lei de direitos autorais — quem explica é o Murilo, que é a cara do canal, enquanto Vinicius faz a produção.

Apesar da linguagem coloquial, ali tem pouco improviso. O Favelado Investidor nasceu no YouTube (e se multiplicou para outras redes sociais) há quase um ano para falar de finanças pessoais e principalmente de investimento em bolsa para a baixa renda. Os dois estudam com afinco antes de levar um assunto ao ar ou fazer referências e até criar polêmicas.

Nos vídeos, citam os sites e livros de onde tiraram as informações que replicam. Para investir em uma ação, eles leem relatórios, mergulham nos balanços e até nos pareceres de auditoria. Pelo menos 30% da audiência é “da quebrada” — de São Paulo, Rio e Nordeste.

O estúdio é a sala da casa de Murilo, que fica numa rua tranquila na entrada da comunidade do bairro Jardim João XXIII, na zona oeste de São Paulo. “Daqui para trás é só morro”, diz.

Sua cachorra Bolt pula eufórica, sobe e desce as escadas da casa de reboco, trançando entre a avó, que mexe no celular tomando sol, e a mãe, que resolve as coisas na cozinha.

É na mesinha da sala, entre dois sofás e o rack da TV e embaixo do basculante do banheiro, que Murilo assume protagonismo. “Investiu em OIBR3 e está com medo do coronavírus?”, brinca, sobre a ação da operadora Oi, que tem alta volatilidade, e o impacto do vírus chinês na bolsa nas últimas semanas.

Tem seguidor que presta mais atenção no cenário do que no conteúdo, mas eles são minoria e não atrapalham o propósito da dupla. Murilo e Vinicius estudaram juntos no ensino médio e entraram no mesmo curso de contabilidade numa faculdade privada, em 2015. Ambos conseguiram logo depois um estágio em um grande banco, quando começaram a pensar na melhor forma de usar o que sobrava do salário depois de pagar as contas.


Murilo Duarte, que fez o canal Favelado Investidor — Foto: Claudio Belli/Valor

“A gente queria multiplicar nosso dinheiro, mas a escola não ensina isso, a faculdade também não, e ainda tinha pouco conteúdo na internet. Começamos a estudar mercado financeiro por conta própria, comprando livros”, conta Vinicius.


Casa de Ferreiro...

No banco, para a surpresa deles, os colegas investiam em títulos de capitalização, poupança e consórcios. Na faculdade, os colegas “riquinhos” também não entendiam nada de investimentos. “A gente viu que ninguém ali sabia, nem o professor, e eram de renda mais alta. Imagina então os moleques que soltavam pipa comigo na laje ou que jogam bolinha de gude na rua?”, diz Murilo. Mas nem eles tinham experiência ainda.

Foi num ônibus a caminho do metrô que Murilo fez seu primeiro investimento, um aporte de R$ 100 no Tesouro Direto, pelo aplicativo de uma corretora que não cobrava taxas. Os dois começaram a aplicar quase todo mês, R$ 50 aqui, R$ 100 ali. Eles resolveram fazer um “movimento de risco”, topando um emprego temporário de verão que pagava quase metade do salário — mas, se fossem contratados ao final, o plano de carreira era melhor que no banco. Era numa empresa de auditoria e foi ali que começaram a destrinchar balanços e ganhar alguma segurança para escolher uma ação.

A primeira — e o melhor rendimento da carteira até hoje — foi a ação da incorporadora Trisul. “Comecei a acompanhar em 2018, estava na faixa de R$ 2, o desempenho da empresa estava melhorando, comprei no início de 2019 por R$ 4,50. Investi R$ 500 e hoje a ação está em R$ 16”, diz Vinicius. Prejuízo? Eles dizem que ainda não tiveram.


“Investi em Itaúsa a R$ 13 e esses dias estava R$ 10, mas não vendi. É preciso entender o que fez a ação cair e, nesse caso, tinha sido a queda da bolsa pelo coronavírus”, diz Murilo. “Isso vai fazer o Itaú lucrar menos? Só se, Deus me livre, todos clientes do Itaú pegarem coronavírus, morrerem. Não dá pra sair vendendo.”


Mas nem todos os seguidores têm a mesma lógica. Dia desses, Murilo resolveu investir na Wiz Soluções, distribuidora de produtos financeiros, como parte da estratégia de diversificação da carteira. Um seguidor comprou também e a ação despencou, 6% em menos de uma semana, resultando em mensagens furiosas em tom quase ameaçador do investidor novato, que correu do papel no prejuízo. Uma semana depois, a ação subiu 10%.

“A gente deixa claro que é um exemplo nossa carteira, não é indicação, mas tem gente que copia. A ideia é conscientizar, mostrar os motivos que nos levam a decisão de investir ou não, e entender que ação oscila mesmo”, diz Murilo.

Inspirados no influencer Thiago Nigro, conhecido como Primo Rico, eles criaram um desafio de construção de patrimônio — fazem e chamam os seguidores para tentar também. “Do zero ao 100 mil” é inspirado em “Do mil ao milhão” feito por Nigro, em que aportes, escolha dos ativos e desempenho são aberto aos seguidores. “Só que na nossa realidade”, afirma Murilo. Nigro já está “Rumo ao Bilhão”.


Dos R$ 100 aos R$ 100 mil

O primeiro vídeo do desafio já teve 144 mil visualizações. Foram seis episódios dedicados à construção da carteira até agora, que começou há cinco meses e hoje soma R$ 6,2 mil entre aportes e rendimentos. A meta é chegar aos R$ 100 mil ao final de 2022.

“As pessoas acham que precisam de muito dinheiro para investir e a gente sabe que a realidade do brasileiro é de um salário mínimo”, diz Vinicius. “A ideia é mostrar que dá pra acumular um valor ‘da hora’ colocando pouco, mas que leva tempo”, complementa Murilo.

Por isso a carteira é voltada especialmente para ativos que podem ter valorização e não geradores de dividendos. “Com aportes pequenos, é a valorização que vai ajudar esse patrimônio a crescer, dividendo vai adicionar muito pouco”, explicam. Cerca de 85% da carteira está investida em ações — sendo Itaúsa, Schulz e Magazine Luiza as maiores posições —, 10% em Tesouro Direto e 5% em um fundo imobiliário. Já criaram até um “ticker” próprio, o FAV3.

Eles recebem cerca de 50 mensagens por dia pedindo ajuda sobre investimentos, dívida, finanças pessoais de forma geral. Escreveram um e-book, o “Guia de Investimento da Quebrada”, que já teve 5 mil downloads, para ajudar nessa inserção no universo das finanças. “Desde o começo, nossa comunicação é com essa classe aqui, que é nossa origem. É explicar simples, é falar com a quebrada onde eu moro”, diz Murilo.

Eles também já entrevistaram o MC MM e o MC Hollywwod sobre como investem seu dinheiro e já tem outros convidados da lista. “Não existe representatividade maior na favela. Você pergunta para os molequinhos o que eles querem ser e, se na minha época era jogador de futebol, hoje é MC”, diz Murilo. “Tem cara que ganha R$ 150 mil num show e torra, mas tem cara que tem a mente para frente e investe, abre um negócio.”

É também com a galera da comunidade que eles têm de debater algumas postagens polêmicas, como ser contra a taxação de grandes fortunas. “E daqui a nove anos, eu com meu patrimônio de R$ 10 milhões, o Estado não vai me sugar não”, finalizaram, após uma série de argumentos. “Veio gente com argumento de Robin Hood, tem gente que romantiza ladrão quando é pobre e que acha que todo empresário que ganha dinheiro é corrupto”, diz Vinicius.

Em outra postagem, declararam: “Vou falar o que ninguém tem coragem de dizer: eu amo o capitalismo”. Foram chamados de “neoliberal de favela” nos comentários mais educados e, ao seguidor que mandou estudarem sociologia, retrucaram: “É o único sistema que permite a população sair da pobreza”. Tem crítica de todo tipo, como quando Murilo aumentou o aporte na carteira porque juntou uma grana do FGTS, quando revelou que a meta é ter dinheiro para sair da favela, e até sobre a parede de reboco.

Eles lidam bem com as críticas e rebatem ideias pré-concebidas. “Quem é da favela está acostumado a ouvir que está destinado a ser traficante, fogueteiro, ladrão ou ‘noia’, mas você que vai definir o que vai ser, independentemente do que dizem”, afirma Vinicius.

“Eu ia para o baile de Paraisópolis e me ofereciam droga todo fim de semana, me chamavam de chato porque dizia não. Tem amigo meu que já recebeu proposta para ficar no ponto de droga e não quis, está trabalhando de Uber. As circunstâncias influenciam sim, mas é sua decisão”, diz Murilo. Eles já decidiram que vão ser milionários.

Veja o último episódio do "Favelado Investidor" no link abaixo: 


https://youtu.be/yapKQP1Rm68










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